Análise de Produção Animação

Análise de Produção: Blue Reflection Ray — Episódio 1

©J.C Staff/Koei Tecmo

Blue Reflection Ray é um anime que faz parte do novo projeto de expansão da agora franquia de jogos RPG Blue Reflection da Koei Tecmo, empresa responsável por jogos como Atelier e Fairy Tail. O enredo do anime é independente do dos jogos, então estamos lidando praticamente com uma história original nas mãos do estúdio J.C. Staff. Pois bem, o primeiro episódio já saiu, então vamos dar uma olhada no resultado dessa produção.

Staff
  • Storyboard: Risako Yoshida (吉田りさこ)
  • Direção de Episódio: Nana Harada (原田奈奈)
  • Supervisor-Chefe de Animação: Koichi Kikuta (菊田幸一)
  • Supervisores de Animação: Yu Murakami (村上雄), Hayato Hashiguchi (橋口隼人), Shingo Nakamura (中村真悟), Hiroshi Tatezaki (舘崎大), Naoto Yoshida (吉田尚人), Xiao Xin Zhao (趙暁昕)

(Caso queiram ver a staff completa do episódio, é só acessar essa planilha aqui, feita pelo autor deste artigo)

Direção

A diretora do anime, a freelancer Risako Yoshida, é bem experiente — inclusive tendo exercido funções de direção em animes desde 2007. Anteriormente, ela já havia sido diretora geral em um anime da J.C. Staff, o Lostorage Conflated WIXOSS, última instância da franquia animada original de WIXOSS. As outras temporadas haviam chamado à atenção pelas direções contemplativas de Takuya Sato e Katsushi Sakurabi. Já a temporada dela ficou marcada por não ter uma direção mais simples, mas se destacou mais na ação que as outras. Curiosamente, o conceito de WIXOSS lembra bastante o desse anime aqui — garotas mágicas lutando em uma dimensão à parte no espaço-tempo tratando introspectivamente o psicológico das personagens — então sua escolha para a direção faz sentido, ainda mais levando em consideração que o produtor de animação desse anime é o Koji Okada (岡田耕二), que começou a atuar nessa função justamente em Lostorage Conflated WIXOSS.

Nesse primeiro episódio, como esperado, ela executou bem suas técnicas simples, mas efetivas. Seu storyboard não é nada muito extravagante, mas sua experiência a permite passar com naturalidade o que quer. Podemos destacar coisas como:

  • O posicionamento da “câmera” atrás dos objetos para passar profundidade;
©J.C Staff/Koei Tecmo
  • A adição de elementos visuais nas conversas para não ficar apenas no plano contra plano;
©J.C Staff/Koei Tecmo
  • E até mesmo a utilização do contraste entre as cores dos cenários para contrastar também duas personagens.
©J.C Staff/Koei Tecmo

A diretora do episódio, Nana Harada, dirige desde a década de 90, então ela passou bem as ideias da Yoshida para a tela. Parecia um resultado bem satisfatório, mas… temos um certo empecilho aí.

Composição, Cores e Cenários

Os conceitos dos designs dos personagens foram elaborados pelo ilustrador Mel Kishida (岸田メル), que definiu as personagens com faces levemente coradas, algo não tão incomum assim. Porém, a solução encontrada pelo setor de fotografia, liderado por Akihiro Takahashi (高橋昭裕), para emular isso na animação, foi trocar o sombreamento tradicional para simplesmente usar um blur com gradiente bem forte em todas elas. Isso não apenas na face, mas em toda a pele das personagens. O resultado final é que as sombras acabaram parecendo, na verdade, queimaduras — ficamos com a impressão de que as personagens ficaram na praia de meio dia a três horas da tarde sem protetor solar, sendo que não é esse o caso.

©J.C Staff/Koei Tecmo

Os cenários também não ajudam, já que o trabalho do diretor de arte Nobuaki Mihara no estúdio Uni (mesma line-up de Battle Girl High School) é bem pouco inspirado. Mesmo quando elas adentram na “dimensão paralela”, que é basicamente o mesmo ambiente, só que com os humanos parados no tempo e só as combatentes se mexendo —semelhante a Bakugan e WIXOSS — não fica tão visualmente interessante por ser só o mesmo cenário com vários filtros em cima.

Tudo que eu disse agora pode estar levando vocês a acreditarem que esse é um triste caso em que a estética toda do anime foi comprometida, já que, além do que foi citado agora, a animação em si, na maior parte do episódio, não chega a ser um destaque. Seria esse então um fracasso total de produção? Felizmente não, pelo menos por enquanto!

Os salvadores

Eu diria que a maior bênção desse anime é Koichi Kikuta, o character designer do anime. Ele é um exímio animador, conhecido por ter exercido também essa função em KonoSuba. Meu temor desde o início do anime era que ele apenas elaborasse os designs e não participasse ativamente da produção, como foi o caso do recente fracasso Tamayomi. Mas felizmente esse temor não se concretizou, e Kikuta foi supervisor-chefe de animação nesse episódio! Sua mão esteve presente em todo o episódio fazendo correções nos seus designs — e que trabalho bem feito, devo dizer!

Apesar de não ter muito o que fazer em relação às faces, que são bem padrão desde o conceito, sua abordagem com o corpo, as roupas e os cabelos das personagens foi louvável. É muito digno de nota o quão bem ele consegue passar de maneira palpável a sensação de anatomia corporal, peso nas roupas e nos cabelos com pouquíssimos traços. Nunca parece que as roupas estão integradas ao corpo das personagens. Com as dobras desenhadas e a “física” por trás delas, é possível sentir perfeitamente a interação entre o corpo e o tecido. O mesmo pode ser dito dos cabelos, especialmente quando estão em movimento.

©J.C Staff/Koei Tecmo

Quem acompanhou o trabalho dele em KonoSuba sabe que ele é muito bom nisso, mesmo quando usado para passar com mais PALPABILIDADE que o necessário partes específicas dos corpos das personagens. Em Blue Reflection Ray, o resultado é que tudo fica muito mais vívido, mesmo sem tanto movimento ou expressividade por parte das personagens. Aliás, minha maior crítica até agora é que essas personagens fazem poucas caretas. EU EXIJO caretas do Kikuta!

Animação

A maior parte do episódio não se destacou muito em relação à animação, mas entregou bons momentos perto do final. Dois dos aces de ação in-house da J.C. Staff, Kenichiro Aoki e Yuki Suzuki, estavam creditados como key animators no episódio. Presumidamente a participação deles foi nessa breve, mas boa sequência. Os dois primeiros cortes, com manchas e efeitos de vento, devem ser trabalho do Aoki, enquanto o restante, com efeitos de fogo, devem ser do Suzuki.

Mas a parte mais interessante é que conseguiram chamar o animador freelancer Kosuke Yoshida para animar a sequência de transformação da personagem. Ele antes já teve a oportunidade de animar uma sequência de transformação na conceituada franquia Precure e em um outro anime da J.C que também tinha garotas mágicas, Twin Angel Break. Será interessante se ele for um regular responsável por todas as cenas importantes de transformação do anime. Ele estava presente também na opening, então não parece ser uma participação isolada.

Expectativas

Mesmo com os deslizes estéticos, o episódio 1 foi até que sólido na medida do possível. O problema é saber até quando a produção vai continuar sólida tendo em vista que esse anime terá 24 episódios. Nessa mesma temporada, está sendo transmitido Edens Zero, outro anime de ação de 2 cours da J.C. Staff, que é onde os aces de ação do estúdio serão regulares. Além disso, esse primeiro episódio já teve um número elevado de supervisores de animação. É realmente difícil imaginar como essa produção vai conseguir se manter com 2 cours. No mínimo devemos ter alguns episódio terceirizados, e dificilmente o Kikuta vai conseguir supervisionar os designs em todos os episódios.

De qualquer forma continuaremos a cobrir essa produção aqui no Anicafé até o fim, será um aprendizado interessante. Na próxima semana, falaremos também da abertura e do encerramento.

Blue Reflection Ray está em simulcast pelo serviço de streaming Funimation.
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